quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Poeta é um fingidor



A Minha Vida é um Barco Abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da acção sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.



Análise do poema "a minha vida é um barco abandonado"



O poema que se inicia com "A minha vida é um barco abandonado" é um poema ortónimo de Fernando Pessoa, ou seja, é um poema que Pessoa escreveu em seu próprio nome, não usando um dos nomes dos seus heterónimos.

A temática do poema tem a ver com a visão da vida pelo sujeito poético, que a compara a um "barco abandonado". O que quer isto dizer? Vejamos numa análise estrofe a estrofe do poema:


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

O sujeito poético usa a metáfora do barco abandonado porque a sua vida se assemelha, quanto a ele, a algo saído da sua rota original desejada. Ou melhor, é um barco que nem sequer se chegou a fazer ao mar. A sua vida não chegou a iniciar-se realmente, não teve um significado maior, mais real. A vida "infiel (...) ao seu destino", é uma vida estranha ao seu próprio destino, ou seja, que não se chegou a cumprir. Existe, mas parada, sem acção, sem atitude. Ele questiona, por isso, porque ela não "ergue ferro e segue o atino / De navegar". Na realidade é o que todas as vidas parecem fazer, menos a dele. Todas as vidas correm, como barcos, numa direcção qualquer e apenas a dele parece parada, sem destino e sem movimento. Há aqui uma grande desilusão com a vida e, simultaneamente, uma sensação plena de afastamento em relação a ela.


Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Porque é que o barco não se lança ao mar (porque é que a vida dele não começa realmente)? O sujeito poético acusa a falha: "Falta quem o lance ao mar". Não se percebe quem será o culpado realmente, mas a suspeição cai perante o próprio sujeito poético. É Fernando Pessoa que se acha incapaz de lançar o seu próprio barco ao mar, a sua própria vida. Falta-lhe o ímpeto, a vontade de acção.


Morto corpo da acção sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Sem quem o lance, o barco fica assim "morto corpo da acção sem vontade / que o viva". Ou seja, é um acto por se cumprir, por falta de vontade. Há que compreender que Fernando Pessoa se refere a si mesmo quando fala assim por metáforas. Ele diz-nos que se sentia incapaz de fazer por ter uma vida melhor, com mais significado, que era incapaz de ter amigos verdadeiros, uma família, um objectivo comum como todos os outros homens. Por falta disso, ele estava só e afastado de tudo - imensamente infeliz e deprimido, sem vontade de nada, "vulto estéril de viver, / Boiando à tona inútil da saudade". Esta última frase é categórica e inegável. Estar a boiar à tona inútil da saudade quer dizer que se vive das memórias mas não se faz nada para sair desse estado de inacção.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.



Nesse estado de convalescença e inutilidade, nada se alcança, nada se consegue. Metaforicamente os limos esverdeiam a quilha do barco e o vento abana-o sem o mover. Para além do mar estará a "ansiada Ilha" que é, nela própria, o objectivo de conseguir alguma coisa. A Ilha representa a vida que o sujeito poético não consegue ter e que nem sequer se imagina a conseguir ter, de tão distante. Para ele, desesperado, a Ilha bem poderia estar para além de todos os mares e de todos os horizontes. Ele nem sequer consegue pôr o seu "barco" a navegar.

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