segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Momentos da Vida: ANIVERSÁRIO


Este foi um momento da vida, da vida vivida, onde o presente se esgota a cada momento, o passado se apaga a cada instante e o futuro se vislumbra cada vez mais curto.
Este foi um momento da vida, porque mais um ano passou, mais uma ruga apareceu, mais um sonho se esgotou na incerteza de que por ora estamos aqui.
Este foi um momento da vida, onde os abraços e os beijos, os carinhos e as mágoas, flutuam no ar, num ar cada vez mais sombrio e cada vez mais lúcido.
Este foi um momento da vida, onde a tristeza de não ter algumas pessoas que amava, algumas pessoas que cresceram comigo e me ensinaram, algumas pessoas para quem o futuro já terminou, me deixam impotente de travar a leitura deste livro da vida.
Este foi um momento da vida, onde nos roderam imagens, sonhos, desilusões, tristezas, alegria, amor, foi como que num único “atado” se enrolacem um “molho” de vidas, um “braçado” de anos, uma ”mão cheia” de cicatrizes.
Estes são os momentos da vida, onde os anos passam, o futuro abrevia-se e tenho tanta e tanta coisa para realizar.
Em cada momento a vida foge-me debaixo dos pés, a cada momento a vida desenrola-se ferozmente, a cada momento a vida gira e ao girar percebemos quão curta ela é.
Talvez esteja triste, talvez esteja contente...não sei bem, este dia foi diferente, este dia foi, o virar da página de um livro que parecia longo e delicioso, mas quando nos apercebemos só falta algumas páginas para acabar. Depois, bem depois pensamos, fecho o livro ou continuo a ler? Mas se o leio depressa chego ao fim, o que faço? Agitam-se os pensamentos, surgem as dúvidas, aparecem os “caprichos”, “caprichos” de viver tão pouco e saber que já ultrapassámos mais de metade do livro... as personagens vão morrendo, e o actor principal, esse caminha para a glória que o espera no final...a morte suave, estranha, estranha porque é como um sono profundo, onde os sonhos desaparecem, os projectos desaparecem e o futuro é quebrado por aquela melancolia sórdida que é a morte.
Deixo-vos com os meus amargurados pensamentos, a noite é longa, e hoje é um dia especial...afinal fiz anos...MUITOS PARABENS. A minha vida está mais curta.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: HUMPHREY BOGART (n. 25 Dez. 1899; m. 14 Jan. 1957)


Baptizado como Humphrey DeForest Bogart, era o filho mais velho de Belmont DeForest Bogart e Maud Humphrey. O Seu pai era um médico cirurgião e a mãe artista gráfica de sucesso. Viveu confortavelmente no bairro de Upper West Side, em Nova York, e estudou  numa escola particular prestigiada, a Trinity School, e posteriormente na Escola preparatória Phillips Academy em Andover, Massachusetts. A principio pensou em estudar medicina na Universidade de Yale, mas os seus planos não se concretizaram por ter sido expulso da escola preparatória por comportamento rebelde. Depois disso dirigiu camilhões por algum tempo.
Por ter nascido no Natal de 1899, a 25 de Dezembro, em Nova Iorque, Bogie foi batizado como "o homem do século passado". Bogart alistou-se na Marinha para combater na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o barco que estava foi atacado por submarinos e um fragmento de madeira rasgou a sua boca, afetando a sua maneira de falar para o resto da vida.
Humphrey Bogart começou a sua carreira nos palcos do Brooklyn em 1921, sem nunca cursar aulas de teatro. Entre 1922 e 1925, apareceu em 21 produções da Broadway. Na época, Bogart conheceu Helen Menken. Casaram-se em 1926 e separaram-se um ano depois. Em 1928, casou-se com a actriz Mary Philips.
Em 1934, Bogart actuou na peça "Invitation to a Murder". O produtor Arthur Hopkins viu-o na peça e escolheu-o para fazer parte do elenco de The Petrified Forest. A peça teve 197 apresentações em Nova York, Bogart representou o papel de Duke Mantee. Essa personagem era um sinistro e perigoso fugitivo da cadeia, Bogart ousou na interpretação, fazendo com que o personagem andasse lentamente e encurvado, pois, segundo ele, era como ficaria se ficasse longos anos presos à correntes e bolas de aço que se usava nos presídios da época.
Quando a Warner Bros comprou os direitos da peça para filmá-la, assinou contrato com o protagonista Leslie Howard. A Warner iniciou então testes para o papel de Duke Mantee, Howard insistiu na contratação de Bogart. Sendo assim, em 1936 o filme A Floresta Petrificada foi lançado, contando ainda com a participação de Bette Davis.Bogart recebeu excelentes elogios.
Mary Philips recusou-se a seguir o marido até Hollywood e pouco depois eles acabaram por se divorcir. Em 1938, Bogart casa-se pela terceira vez, agora com a atriz Mayo Methot. O casamento com Mayo foi desastroso, ela era paranóica quando bebia e convencida que o marido a traía gerava várias discussões (o "ponto final" no casamento deles foi provavelmente Casablanca (1943), quando Mayo o acusou de ter um caso com Ingrid Bergman. Mas Bogie ía segurar o casamento até à sua "válvula de escape", Betty "Lauren" Bacall). No filme "Casablanca" surgiu uma das lendas do cinema, a frase que ficaria famosa e que Bogart nunca a disse: -Toque de novo Sam! (no original: Play it again, Sam!)
Em 1938, Bogart apareceu  num musical chamado Swing Your Lady no papel de um promotor. No ano posterior apareceu no filme The Return of Doctor X. Ambos filmes sem muita projeção. Entre 1936 e 1940, a Warner não lhe deu bons papéis, mas ele mesmo assim não recusava os papéis que lhe eram dados para não ser dispensado. Fez filmes como, Racket Busters, San Quentin e You Can't Get Away With Murder. O seu melhor papel da época foi em Dead End de 1937. Também trabalhou em vários filmes como actor (coadjuvante/secundário), entre eles o sucesso Anjos de Cara Suja / Anjos de Cara Negra. Uma característica de seus papéis dessa época, e a de que ele "morria" em quase todos os filmes.
Em 1941, Bogart actuou como protagonista em “Seu Último Refúgio”, um roteiro que teve a participação de John Huston, seu parceiro de farra. No mesmo ano, também actuou no clássico “Relíquia Macabra”, com John Huston assumindo a direcção. Neste filme, fez o papel de Sam Spade, um investigador particular. O filme foi considerado pela crítica de cinema Roger Joseph Ebert e pela revista Entertainment Weekly como um dos melhores filmes de todos os tempos e recebeu três indicações ao Oscar.
Depois de tantos filmes de gangsters, policiais, bandidos e mocinhos, Bogart pela primeira vez faz um filme romântico/dramático, “Casablanca”. Lançado em 1942, o filme é um dos maiores clássicos do cinema mundial. Interpreta Rick Blaine, o dono de um clube na cidade de Casablanca em Marrocos. Durante as filmagens, ele e Ingrid Bergman, a protagonista feminina, quase não se falaram. Ela diria tempos depois: "Eu beijei-o mas nunca o conheci". Bogart foi indicado ao Oscar de melhor actor mas não venceu, embora Casablanca tenha vencido na categoria de melhor filme.
Durante as filmagens de “Uma Aventura na Martinica” em 1944, Bogart conheceu aquela que seria a sua quarta esposa e que lhe traria o casamento mais feliz, a jovem actriz Lauren Bacall, ou Baby (como a chamava por ser 25 anos mais nova). Eles casaram-se em 1945 e fizeram no ano seguinte o filme “À Beira do Abismo” já como marido e mulher.
Em 6 de janeiro de 1949, Lauren deu à luz o primeiro filho do casal, Stephen Humphrey Bogart (apelidado de Steve, em honra ao personagem de Bogie em “Uma Aventura na Martinica”) e depois, em 23 de agosto de 1952, eles tiveram uma menina, Leslie Howard Bogart. O nome foi em homenagem ao actor Leslie Howard que ajudou Bogart no início da carreira.
Hoje Stephen tem três filhos, Jamie e Richard e uma menina (agora modelo) Brooke.
De 1943 até 1955, Bogart fez vários filmes interpetando diferentes personagens. Em 1949, fundou a sua própria produtora, a Santana Productions.
No ano de 1951, Bogart fez o filme “Uma Aventura em África” contracenando com Katharine Hepburn num duelo memorável de interpretações e dirigido por John Huston. Este foi o seu primeiro filme colorido e o seu trabalho como o barqueiro Charlie Alnutt fez com que conquistasse finalmente o Oscar de melhor actor.
Em 1954, filmou “A Nave da Revolta”, baseado no livro homónimo de Herman Wouk, que ganhou o Prémio Pulitzer em 1951, no papel do esquizofrênico Capitão Queeg. No mesmo ano ainda participou em “Sabrina” com Audrey Hepburn e William Holden e em “A Condessa Descalça”, com Ava Gardner.
O seu último trabalho foi em “A Trágica Farsa” de 1956 no papel de Eddie Willis, um jornalista desportivo que vira promotor de boxe.
Bogart bebia e fumava muito e teve um cancro no esófago. Em 1956, fez uma cirurgia para retirar o esófago e dois linfomas, mas acabou por morrer em coma no dia 14 de Janeiro de 1957.

Carreira Cinematográfica:


  • 1930 Broadway's Like That/Ruth Etting in Broadway's Like That (short)
  • 1930 Up the River
  • 1930 A Devil With Women
  • 1931 Body and Soul
  • 1931 Bad Sister
  • 1931 A Holy Terror
  • 1932 Love Affair
  • 1932 Big City Blues
  • 1932 Three on a Match
  • 1934 Midnight
  • 1936 The Petrified Forest
  • 1936 Bullets or Ballots
  • 1936 Two Against the World (USA retitling for-TV: One Fatal Hour) (GB: The Case of Mrs Pembrook)
  • 1936 China Clipper
  • 1936 Isle of Fury
  • 1936 The Great O'Malley
  • 1937 Black Legion
  • 1937 Marked Woman
  • 1937 Kid Galahad (USA retitling for TV: The Battling Belihop)
  • 1937 San Quentin
  • 1937 Dead End
  • 1937 Stand-In
  • 1938 Swing Your Lady
  • 1938 Men Are Such Fools
  • 1938 Crime School
  • 1938 Racket Busters
  • 1938 The Amazing Dr Clitterhouse
  • 1938 Angels With Dirty Faces
  • 1939 King of the Underworld
  • 1939 The Oklahoma Kid
  • 1939 You Can't Get Away With Murder
  • 1939 Dark Victory
  • 1939 The Roaring Twenties
  • 1939 The Return of Dr X
  • 1939 Invisible Stripes
  • 1940 Virginia City
  • 1940 It All Came True
  • 1940 Brother Orchid
  • 1940 They Drive by Night (GB: The Road to Frisco)
  • 1941 High Sierra
  • 1941 The Wagons Roll at Night
  • 1941 The Maltese Falcon
  • 1942 All Through the Night
  • 1942 The Big Shot
  • 1942 Across the Pacific
  • 1942 Casablanca
  • 1943 Action in the North Atlantic
  • 1943 Thank Your Lucky Stars (guest)
  • 1943 Sahara
  • 1944 Passage to Marseille
  • 1944 To Have and Have Not
  • 1945 Conflict
  • 1945 The Two Mrs Carrolls
  • 1945 Hollywood Victory Canteen (guest) (short)
  • 1946 The Guys From Milwaukee (uncredited guest) (GB: Royal Flush)
  • 1946 The Big Sleep
  • 1947 Dead Reckoning
  • 1947 Dark Passage
  • 1947 Always Together (uncredited guest)
  • 1948 The Treasure of the Sierra Madre
  • 1948 Key Largo
  • 1949 Knock on Any Door
  • 1949 Tokyo Joe
  • 1950 Chain Lightning
  • 1950 In a Lonely Place
  • 1951 The Enforcer (GB: Murder Inc.)
  • 1951 Sirocco
  • 1951 The African Queen
  • 1952 Deadline USA (GB: Deadline)
  • 1953 Battle Circus
  • 1953 Beat the Devil (GB- IT)
  • 1954 The Love Lottery (uncredited guest) (GB)
  • 1954 The Caine Mutiny
  • 1954 A Star Is Born (voice only)
  • 1954 Sabrina (GB: Sabrina Fair)
  • 1954 The Barefoot Contessa
  • 1955 We're No Angels
  • 1955 The Left Hand of God
  • 1955 The Desperate Hours
  • 1956 The Harder They-FalI.

Os "Pais" da SOCIOLOGIA: ERVING GOFFMAN (n. 11 Jun.1922; m. 19 Nov.1982)


Erving Goffman nasceu em Manville, Alberta, no Canadá em 11 de Junho de 1922 e faleceu em Filadélfia no Estado da Pensilvânia nos Estados Unidos da América no dia 19 de Novembro de 1982. Obteve o grau de bacharel pela Universidade de Toronto em 1945, tendo feito o mestrado e doutoramento na Universidade de Chicago, onde estudou tanto Sociologia como Antropologia Social. Em 1958 passou a integrar o corpo docente da Universidade da Califórnia em Berkeley, tendo sido promovido a Professor Titular em 1962. Ingressou na Universidade da Pensilvânia em 1968, onde foi professor de Antropologia e Sociologia.
Em 1977 obteve o prémio Guggenheim. Foi presidente da Sociedade Americana de Sociologia, em 1981-1982. Efectuou pesquisas na linha da sociologia interpretativa e cultural, iniciada por Max Weber. Em “La mise en scène de la vie quotidienne”, Goffman desenvolve a ideia que mais identifica a sua obra: o mundo é um teatro e cada um de nós, individualmente ou em grupo, teatraliza ou é actor consoante as circunstâncias em que nos encontremos, marcados por rituais posições distintivas relativamente a outros indivíduos ou grupos.
Goffman aplicou ao estudo da civilização moderna os mesmos métodos de observação da antropologia cultural: assim como, nas sociedades indígenas, há ritualizações que permitem distinguir indivíduos e grupos, também, nas sociedades contemporâneas, a origem regional, a pertença a uma classe social ou quaisquer outras categorias se marcam por ritualizações que distinguem indivíduos e grupos, tomando por exemplo pequenos aspectos, como as formas de vestir ou de se apresentar publicamente. No contexto descrito, Goffman considera a interacção como um processo fundamental de identificação e de diferenciação dos indivíduos e grupos; de resto, os mesmos, isoladamente, não existem; só existem e procuram uma posição de diferença pela afirmação, na medida em que, justamente, são "valorizados" por outros.
Estudou a interacção social no dia-a-da, especialmente em lugares públicos, principalmente no seu livro “A Representação do Eu na Vida Quotidiana”. Além disso, em seu livro intitulado “Estigma, Notas Sobre a Manipulaçao da Identidade Deteriorada”, aborda aspectos interessantes a respeito das marcas vistas negativamente em relaçao aos aspectos corporais, raciais, ou mesmo de paixões tirânicas. Para Goffman, o desempenho dos papeis sociais tem a ver com o modo como cada indivíduo concebe a sua imagem e a pretende manter. Estudou também com especial atenção o que chamava de "instituições totais", lugares onde o indivíduo era isolado da sociedade, tendo todas as suas actividades concentradas e normalizadas. Pode-se citar com exemplo as prisões, os manicómios, os conventos e algumas escolas internas. No campo da linguagem Erving Goffman contribui com o estudo da interação humana, introduzindo o conceito de "footing". Footing representa o "alinhamento, a postura, a posição, a projecção do 'eu' de um participante na sua relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção." (GOFFMAN, 1998 In: RIBEIRO, Branca Telles & GARCEZ, PEDRO M.)
Esse autor tem um importante papel na Antipsiquiatria e Luta Antimanicomial no Brasil, graças à suas colocações sobre a função social da Psiquiatria na nossa sociedade.

O Poeta é um fingidor


Dizem que em cada Coisa uma Coisa Oculta Mora

Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?

Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.

Análise do Poema

O poema que se inicia com "Dizem que em cada coisa uma coisa..." é um poema que pertence ao conjunto de poemas de Caeiro denominado como "Poemas Inconjuntos" e está datado de 5/6/1922. Data desde já curiosa, visto que Caeiro morre (segundo a sua biografia) em 1915...
 O facto é que este pequeno (e curioso pormenor) nos indica desde logo a natureza de certos poemas "tardios" de Caeiro. São poemas onde o autor é claramente o mesmo, mas onde os assuntos, as temáticas, ou mesmo as abordagens às temáticas podem ser muito variadas e diferentes, se as compararmos com as temáticas e perspectivas presentes no grande livro de Caeiro, a sua obra-prima, o "Guardador de Rebanhos". Esta diferença é ainda mais notória num outro conjunto de poemas, denominado "Pastor Amoroso".
 Neste poema que agora analisamos podemos ver um Caeiro um pouco diferente do Caeiro do "Guardador de Rebanhos". É um Caeiro com maiores dúvidas, que põe em questão algumas certezas que estabelecera no seu "livro". Nomeadamente põe em dúvida a sua própria natureza:
 Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.
 Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo —
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?
 A segunda estrofe é uma estrofe atípica em Alberto Caeiro, que sempre insiste na visão que passa na primeira estrofe: as coisas são o que são e nada mais do que isso, porque pensar no que as coisas são é "estar doente dos olhos". Mas vemos como ele aqui se questiona a si próprio, coisa que normalmente ele não faria.
 Todo o seu discurso subsequente é profundamente anti-Caeiro:
 Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?
 E isto revela que Caeiro - que é visto sobretudo como um anti-metafísico, como alguém que renega o pensar em favor de um objectivismo total da realidade, que se quer aproximar à Natureza ao ponto de ser parte integrante dela e nada mais - teve momentos de dúvida, numa época tardia (mesmo post mortem!). Mas não deixa de ser o mesmo indivíduo em busca das mesmas explicações.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: RUI FILIPE (n. 8 Mar. 1968; m. 28 Ago. 1994)



Rui Filipe Tavares de Bastos, nasceu a 8 de Março de 1968, em Vale de Cambra (Distrito de Aveiro). Começou a sua carreira profissional no Sporting de Espinho, por empréstimo do Futebol Clube do Porto, na época 1989/90 e ao Gil Vicente na época de 1990/91, depois de fazer o seu percurso de Juvenil nas Escolas do F.C.Porto.
Este antigo médio-centro do FC Porto era um jogador altruísta e que ao excelente porte físico aliava uma grande certeza no passe e um bom remate de meia-distância. No entanto, a sua maior virtude era a generosidade que colocava em campo.
No seu primeiro ano no Futebol Clube do Porto, marcou quatro golos em vinte e cinco jogos e tornou-se nesse ano campeão nacional pela equipa portista.
Na época de 1993/94 na Champions League ajudou a equipa a chegar às meias-finais, fazendo no jogo com o Werder Bremen, em o Porto ficou em primeiro lugar no seu grupo.
Na época de 1994/95 foi um importante jogador no meio-campo, marcando no jogo inaugural, e ajudou a sua equipa a conquistar a Supertaça frente ao SL Benfica.
Morre a 28 de Agosto de 1994, apenas com 26 anos, vítima de um acidente de viação.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Minha Tese: Percursos e Representações sobre o Consumo Excessivo de Álcool: Um Estudo Exploratório na Grande Área de Lisboa - BIBLIOGRAFIA



A.   Temática


A REPORT TO THE EUROPEAN UNION, (1998), Alcohol Problems in the Family, England, Published by Eurocare.

ADÉS, Jean, LEJOYEUX, Michel, (1997), Comportamentos alcoólicos e seu tratamento, Lisboa, Climepsi.

ALMEIDA, João Ferreira de, (coord.), (1999), Introdução à Sociologia, Lisboa, Universidade Aberta.

BOURDIEU, Pierre (1979),  La Distinction - Critique Social du Jugement, Paris, Éd. de Minuit.

CABRAL, Álvares, et al., (1990), Problemas do Álcool nas Famílias, Empresas e Comunidades, Lisboa, SAAP.

CASTELÃO, O., CANHA, C. (1985), Álcool – Marginalidade, Lisboa, Instituto Damião de Góis

CLAVEL, Gilbert, (2004), A Sociedade da Exclusão – Compreendê-la para dela sair, Lisboa, Porto Editora.

CLÍMACO, Maria Isabel, RAMOS, Luís, (coords.), (2003), Álcool, tabaco e jogo – do lazer aos consumos de risco, Coimbra, Quarteto.

DOMINJON, Jacqueline, WAGNER, Anne-Catherine, (2006), Os estudantes e o Álcool, Coimbra, Quarteto.

DURKHEIM, Emile, (1998), As regras do método sociológico, Lisboa, Presença (7ª edição).

FERREIRA, J.M.Carvalho, NEVES, José, CAETANO, António, (2001), Manual de psicossociologia das organizações, Lisboa, McGraw-Hill.

FOUQUET, Pierre, BORDE, Martine de, (1985), Le Roman de l’álcool, Paris, Seghers.

FRAZÃO, H., BREDA, J., PINTO, A., Álcool e Criminalidade, – “população doente do C.R.A.C.”, Revista da Sociedade Portuguesa de Alcoologia, 1997

GAMEIRO, Aires, (1998), Hábitos de beber dos portugueses e prevenção dos problemas ligados ao Álcool, in Hospitalidade, Mem-Martins.

GAMEIRO, Aires, (2000), Alcoolismo nos Açores e Madeira – Padrões de Consumo em 1999 e 2000 – Linhas de Prevenção, Lisboa, Editorial Hospitalidade.

GIDDENS, Anthony (2000), Sociologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian (2ª edição).

MELO, Paixão, CARVALHO, Gualter de, (trad. e adap.), (1977), Generalidades sobre o alcoolismo, Lisboa, Sociedade Anti-Alcoólica Portuguesa (2ª edição).

MELLO, M.L. Mercês de, BARRIAS, José, BREDA, João, (2001), Álcool e problemas ligados ao álcool em Portugal, Lisboa, Direcção Geral de Saúde.

MENDONÇA, M, (1977), Étude pédopsychiatrique sur des enfants de père alcoolique, Rev. Neuropsychiatrique Infants, Nº 25,  pp. 411-428.

MERRIAM, Sharan, (1988), Case Study Research in Education: A Qualitative Approach, São Francisco e Londres, Jossey-Bass Publishers.

NOWLIS, Hellen, (1979), A verdade sobre as drogas, Lisboa, Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate à Droga, (4ª edição).

OPSS (2003), Relatório da Primavera de 2003 – Saúde que rupturas? Lisboa, Escola Nacional de Saúde Pública.

PAIS, José Machado, (2006), Nos Rastos da Solidão – Deambulações Sociológicas, Lisboa, Âmbar.

PAIS, José Machado, CABRAL, M. Villaverde, (coord.), (2003), Condutas de risco, práticas culturais e atitudes perante o corpo – resultados de um inquérito aos jovens portugueses em 2000, Oeiras, Celta.

STEL, Jaap der, (1998), Manual de prevenção: Álcool, drogas e tabaco, Estrasburgo, Conselho da Europa.

VALA, Jorge, MONTEIRO, M. Benedicta, (coords.), (1996), Psicologia social, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, (2ª edição).

B.   Metodológica

ALBARELLO, Luc et al. (1998), Práticas e Métodos de Investigação em Ciências Sociais, Lisboa, Gradiva.

ALMEIDA, João Ferreira de, PINTO, José Madureira (1982), A Investigação nas Ciências Sociais, Lisboa, Editorial Presença.
           
BARDIN, Laurence, (1977), Análise de Conteúdo, Lisboa, Edições 70

BELL, Judith, (1993), Como realizar um projecto de investigação, Lisboa, Gradiva

BOUDON, Raymond., (1990), Os métodos em Sociologia, Lisboa, Rubim, pp. 41-78

BURGESS, Robert G. (2001), A Pesquisa de Terreno (uma introdução), Oeiras, Celta Editora

COSTA, António Firmino da, “A pesquisa de terreno em Sociologia”, in PINTO, J. Madureira e SILVA, A. Santos, (org.), (1984), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Editorial Afrontamento, Capitulo V, pp. 129-148

DURKHEIM, Emile, (1975), A Ciência Social e a Acção, Amadora, Livraria Bertrand.

ECO, Umberto, (1982), Como se faz uma tese em Ciências Humanas, Lisboa, Editorial Presença.

FODDY, William, (1996), Como perguntar – Teoria e prática da construção de perguntas em entrevistas e questionários, Oeiras, Celta Editora.

GIDDENS, Anthony (1996), Novas Regras do Método Sociológico, Lisboa, Gradiva – Publicações.

GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamim, (1995), O inquérito: Teoria e Prática, Oeiras, Celta.

GREENWOOD, Ernest, (1965), Métodos de investigação empírica em sociologia, Análise Social, Nº 11.

HILL, M. Manuela, HILL, Andrew, (2002), Investigação por Questionário, Lisboa, Edições Silabo.

MOREIRA, C. Diogo, (1994), Planeamento e Estratégias da Investigação Social, Lisboa, ISCSP.

QUIVY, Raymond, CAMPENHOUDT, Lucvan. (1998), Manual de investigação em ciências sociais, Lisboa, Gradiva, (2ª edição).

SILVA, A. Santos, PINTO, J. Madureira, (orgs.), (2001), Metodologia das ciências sociais, Porto, Afrontamento, (11ª edição).

VALA, Jorge, A Análise de Conteúdo, in SILVA, A. Santos, PINTO, J. Madureira, (orgs.), (1999), Metodologia das Ciências Sociais, Porto, Edições Afrontamento.

C.   Fontes Consultadas

Biblioteca do ISCTE.

Localização: Av. das Forças Armadas, Edifício II do ISCTE.
Tipo de Acesso: Público
Horário: Seg. – Sex. 10h00 – 20h00 

Biblioteca Nacional

Localização: Campo Grande, 83
Tipo de Acesso: Público
Horário: Seg. – Sex. 09h30 – 19h30
               Sábados 09h30 – 17h30


D.   Endereços Electrónicos

CRAS, Centro Regional de Alcoologia do Sul (2006),

ISJD, Instituto S. João de Deus, Casa de Saúde do Telhal (2005),

SAAP, Sociedade Anti-Alcoólica Portuguesa, (2006)
http://saap.planetaclix.pt/saap/pt

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Às Voltas com a Memória: HÉCTOR YAZALDE (n. 29 Mai. 1946; m. 18 Jun. 1997)


Héctor Casimiro Yazalde, nasceu em 29 de Maio de 1946, num bairro pobre de Buenos Aires.
Devido à sua condição social desfavorecida, quando entrou para a escola aos sete anos, não tinha livros. Horácio Aguirre, um bom amigo, era quem lhe emprestava os livros para que pudesse estudar.
Aos 13 anos começou a trabalhar para ajudar no sustento da família. Começou por vender jornais, depois bananas e por último a partir gelo.
Em 1965, quando Yazalde foi assistir ao treino do seu amigo Horácio Aguirre, no Piraña, clube de Buenos Aires, pediu que alguém lhe emprestasse um equipamento para treinar. Na mesma tarde assinou o contrato e recebeu 2.000 pesos argentinos, que era o equivalente ao que recebia num mês, como vendedor ambulante de bananas.
Dois anos passados e transferiu-se para o Independiente de Buenos Aires. Aos 20 anos, sagrou-se pela primeira vez campeão e recebeu o troféu de artilheiro. Não foi preciso muito tempo para que fosse chamado à selecção Argentina.
Em 1967/1968 revalidou o título de Campeão Nacional da Argentina e com o dinheiro que recebeu comprou um apartamento no centro de Buenos Aires.
Em 1970, surgiram convites do Santos, do Palmeiras, do Valência, do Lyon, do Nacional de Montevidéu e do Boca Juniors, mas quem o convenceu foi o dirigente do Sporting, Abraão Sorin.
Com o dinheiro que recebeu construiu uma vivenda em zona chique, para os pais viverem à sua volta. Na primeira temporada que jogou pelo Sporting, Yazalde não apareceu, mas na temporada de 1973/1974, o popular "Chirola" marcou 46 golos em 30 jogos e conquistou a Bota de Ouro europeia.
Yazalde estabeleceu um novo recorde europeu de golos em 19 de Maio de 1974, batendo o recorde do húngaro Skoblar. Como prémio recebeu um carro, que vendeu e dividiu o dinheiro com os companheiros de equipa.
Em 1975, transferiu-se para o Marselha, mas não foi feliz. Voltou para a Argentina, onde se tornou empresário de futebol.
Faleceu com 51 anos, a 18 de Junho de 1997, em Buenos Aires, vítima de uma cirrose hepática e paragem cardíaca.

O Poeta é um fingidor


TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
 
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Análise do Poema

Datado de 15 Jan. 1928, o poema "Tabacaria" enquadra-se na terceira fase poética de Álvaro de Campos, denominada a fase pessoal (Jacinto Prado Coelho) ou "Fase Pessimista", que vai de 1916 a 1935 (ano da morte de Pessoa). Desiludido dos esforços das fases anteriores, "Sensacionalista" e "Futurista", Campos deixa-se cair num pessimismo intenso, marcado com um forte regresso das memórias da sua infância e a consciência de que ficou (e está) sozinho no mundo.
A linguagem é muito mais moderada do que nas fases anteriores. Campos assume-se agora como um poeta plenamente desiludido com a vida, e muitos dos seus poemas – como Tabacaria – ganham um ritmo deliberadamente lento e retrospectivo, em clara contraposição com, por exemplo, as grandes Odes do seu período futurista.
O tema do poema é a dimensão da solidão interior face à vastidão do Universo exterior. A Tabacaria acaba por ser um símbolo que não tem valor próprio – verdadeiramente importante é que esse símbolo faz nascer em Campos a necessidade de analisar a sua própria existência face à existência da Tabacaria enquanto coisa fixa e real.
Podemos imaginar Pessoa no seu quarto da Rua Coelho da Costa. Talvez nada disto tenha ocorrido, ou tenha sido um episódio real que se derramou para a literatura. Seja como for, há nisto um leit-motif muito próprio de Pessoa – a ligação do imanente e do transcendente, do real e do ideal, do eu e do vário.
A própria simbologia do quarto e da janela versus a rua e a Tabacaria, representa essa oposição entre o "dentro" e o "fora", uma oposição dialéctica que parte em busca de uma síntese de compreensão.
Mas ao longo de todo o texto, há uma noção clara de diálogo, mesmo sem personagens. É de facto um monólogo, onde Campos fala para si mesmo, e em evidentes momentos de quebra (passagens entre parêntesis) pára mesmo para pensar, intercalando ao discurso racional momentos de delírio momentâneo, irracionais, emocionais, mas complementares.
Eu dividiria o poema em 4 partes:
A primeira parte corresponde à primeira estrofe, onde é assumido uma espécie de vazio ontológico – "não sou nada", e a contraposição entre o nada exterior e o tudo interior ("tenho em mim..."). Na realidade o vazio ontológico é ilusório e aquele "nada" é apenas o assumir de não ser nada exteriormente – a nulidade não é verdadeiramente ontológica, mas fenomenológica.
Na parte seguinte, estrofes 2-6, Campos estabelece a sua condição actual ao mesmo tempo que nos localiza – sabemos que está no seu quarto e a metáfora do quarto é a metáfora da sua condição humana. Ele é uma mente presa num quarto que olha a realidade do dia-a-dia por uma janela. Simples, mas ao mesmo tempo delicada, a simbologia marcante destas estrofes levam-nos à definição do "eu" de Campos enquanto ser só e abandonado à sua sorte. Ao transferir para metáforas reais os seus sentimentos, Campos concretiza poeticamente uma análise impossível através do raciocínio simples. Mas o que fica é sobretudo um sentido de oposição entre realidade (a rua, a Tabacaria) e irrealidade (a vida de Campos, o quarto). A ligação entre ambas é apenas uma janela, ou seja, permite uma interacção limitada, mas nunca uma passagem concreta de uma para a outra. Campo é um "falhado", mesmo que se saiba um génio – é afinal Pessoa que fala pela voz da Campos. Está vencido e sabe que nunca conseguirá ser feliz.
Na terceira parte (estrofes 7-13), até à entrada do homem na Tabacaria, Campos justifica para si mesmo o rumo que tomou na vida e, deixando ainda tomar-se pelo desespero, olha as alternativas que lhe restavam para ser feliz. Aqui a contraposição já não é entre o real e o ideal, entre o fora e o dentro, mas entre ele e os outros, entre a sua condição e a condição dos outros. Choca-lhe sobretudo aqueles que vivem a sua vida numa inconsciência plena – essa é afinal em muitas das passagens de Pessoa, afinal o ideal inatingível de felicidade – porque os vê precisamente como os suas próprias némesis, os seus adversários, os adversários de quem pensa e se preocupa. Começa com a rapariga que come chocolates, suja, perdida na sua gula. Essa passagem é marcante e simples de analisar: "Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! / Mas eu penso". Mas sabe que isso está fora do seu alcance – ele não vai deixar de pensar. Resta-lhe uma atitude nobre vaga: os poemas. Uma atitude nobre que ele espera que o salve, não sabe bem como, de uma mediocridade intensa que lhe vem de não nada fazer sentido na sua vida.
A quarta parte (estrofe 8 e seguintes) marcam o regresso da realidade. Campos deixa de "filosofar" quando um elemento real se intromete entre ele e a Tabacaria. Tudo se desmorona, porque tudo estava apenas no pensamento de Campos e nunca poderia ser real da mesma maneira que o Esteves é real. (haverá também afinal um nome mais real do que Esteves?). Passando subitamente a interveniente na realidade que analisava, Campos, assim que vê um conhecido e que depois lhe acena, deixa de poder estar fora da realidade para ser puxado violentamente para o meio dela. É assim que o Universo se reconstrói subitamente, sem metafísica, ou seja, sem dar mais azo ao pensamento e à análise – é só a verdade dos sentidos e não a idealização do pensamento.