quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Poeta é um fingidor


SOU UM EVADIDO

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.


Análise do poema "sou um evadido”

O poema "Sou um evadido" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 5/4/1931.  Este poema parece tratar do tema da heteronímia, mas veremos mais em particular analisando cada uma das suas estrofes. 

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Pessoa parece referir-se na primeira estrofe à sua infância. "Logo que nasci / Fecharam-me em mim". Poderá ter a ver com a sua maneira de ser enquanto criança, fechado dentro de si próprio, limitado pelas suas próprias circunstâncias, nomeadamente a necessidade de se proteger emocionalmente face às mudanças que ocorreram na família depois da morte do seu pai e da mudança de todos para a África do Sul, tinha o poeta apenas 7 anos. Mas ele disse que fugiu dessa prisão, Veremos como.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Na segunda estrofe ele começa um pouco a falar da maneira como fugiu. Equipara o cansaço de estar sempre no mesmo lugar ao cansaço de ser sempre a mesma pessoa.  

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Esse cansaço de ser sempre o mesmo, ele curou-o sendo várias pessoas diferentes dentro de si. Isso fez com que se perdesse da sua própria alma. Esta estrofe é de enorme importância, porque nos revela que ele tinha plena consciência de que a sua multiplicação em várias personalidades levaria a uma inevitável "morte psicológica" do seu ser. Ele morreu para muitos nascessem dentro dele próprio. Como consequência, ele nunca mais se conseguiria achar a si mesmo, unitário. Seria para sempre partido em muitos seres - os seus heterónimos, as suas múltiplas personalidades.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Como confirmação do que dizíamos, vemos que na última estrofe o poeta nos diz que "Ser um é cadeia / Ser eu não é ser". "Viverei fugindo" é uma referência absolutamente notável à multiplicação das personalidades e a fuga tem a ver com fugir de si próprio. Ele renega a sua própria identidade em favor de identidades imaginadas, porque acha que é a única forma de sair da prisão em que foi colocado.

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