quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Poeta é um fingidor



CHOVE. QUE FIZ EU DA VIDA?

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim…
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!

Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter…

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!


ANÁLISE DO POEMA “CHOVE. QUE FIZ EU DA VIDA?”


O poema que se inicia com "Chove. Que fiz eu da vida?" é um poema ortónimo de Fernando Pessoa, datado de 23/10/1931. Trata-se, portanto, de um poema tardio do poeta.

O fim do ano de 1931 é bastante complicado para Fernando Pessoa. Nos primeiros meses do ano, por volta de Março/Abril, ele acaba a segunda fase do namoro com Ophélia Queiroz e fica definitivamente sozinho. Está já cansado e a sua vida de solidão, consumo exagerado de álcool e tabaco, afectam a sua saúde de maneira cada vez mais marcada. É um homem precocemente envelhecido e e que sente que já nada o pode salvar.

O poema que analisamos agora é bem representativo desta tristeza que invadia a vida do poeta.


Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!


A reflexão sobre o seu passado e sobre a sua vida é uma das marcas principais da poesia ortónima de Fernando Pessoa. Ele, na primeira estrofe do poema, olha para a natureza, para a chuva, e compara-a à sua própria vida desolada. A chuva exterior encontra um paralelo numa "chuva interior", numa tristeza interior, considerando que, para ele, a sua vida era, no presente, um falhanço completo. "Que fiz eu da vida?" pergunta ele. Devemos esclarecer que Pessoa teria sonhos demasiado grandiosos para o que conseguiria alcançar. Sonhos de influenciar os destinos do país, da raça... mesmo da humanidade. E o que se concretizou disso tudo em vida? Nada. A 4 anos da sua morte, o poeta sente – com alguma razão – que falhou completamente aos seus sonhos de juventude.


Viveu uma vida em que não teve grande controlo sobre o que lhe ia acontecendo: "Fiz o que ela fez de mim...". Podemos mesmo dizer que ele provavelmente pensava que tinha antes sido vivido pela vida. Pensou sobre ela, planeou-a, mas viveu-a mal. E é isso que o entristece. "Triste de quem é assim!", lamenta-se ele finalmente.


Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...


Essa condição de falhado não tem "remédio". Porquê? Porque não se pode apagar toda uma vida de fracassos, de sofrimento e de solidão. Mesmo que nos 4 anos que lhe restassem Pessoa subitamente – por qualquer milagre – conseguisse realizar tudo aquilo que desejava realizar nos anos anteriores, nem isso conseguiria apagar o seu sentimento. Esta angústia indefinida – que é um sentimento de alguém que existe mas sem razão para existir porque tudo o que desejava nunca se pode concretizar – leva-o a uma condição estranha, um "ser entre saudade e tédio". Saudade do que "nunca quis ter" e um tédio presente, porque nada faz sentido, nada faz sentido porque nada se aproxima das suas ambições. Em resumo a sua vida presente é absurda e parece-nos que ele apenas espera pela morte, para que tudo acabe. Nada mais há a esperar senão que tudo acabe.


Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!


A última estrofe já não traz nada de novo. Vemos que o poeta nos revela que o passado está perdido – o "outro eu", "o eu que pudera ter sido", não existe realmente – ou se existe é apenas numa dimensão estranha e paralela, inalcançável porque numa outra realidade apenas imaginada. A realidade é que ele está perdido desse outro eu, "partido", separado dele e de si mesmo. O seu último desejo é por isso um desejo que ao menos lhe parece real e que poderia apaziguar um pouco a sua tristeza – que chovesse menos.


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